| Decifra-me, se tiver coragem (parte 2) | | Imprimir | |
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Na grande conspiração da ICAR pela soberania, muitos foram aqueles que pagaram com a própria vida por terem pregado a verdade. A última sentença do Santo Ofício ocorreu em 1821, em Portugal. Em março do mesmo ano o tribunal da inquisição foi extinto numa sessão da ICAR. Mas engana-se quem pensa que o Brasil não teve seus dias de caça aos hereges. Apesar do tribunal da inquisição nunca ter se estabelecido por nossas terras, os padres e bispos brasileiros foram investidos de poderes inquisitoriais, podendo efetuar prisões, confiscar propriedades e enviar suspeitos para os tribunais europeus. Conta-se que o país recebeu a visita de inquisidores em 1591 e em 1618. Entre os brasileiros que sofreram pela ignorância da fé estão Antônio Felix de Miranda, André Lopez Ulhoa e mais 23 judeus que foram deportados para Lisboa e condenados à fogueira por não serem cristãos; João de Boles, que foi deportado para a Índia, pagando com a vida por pregar o protestantismo; o Padre Antonio de Gouveia também foi acusado de prestidigitação e necromancia. Deportado para Portugal, nada mais se soube dele. Segundo pesquisas feitas pelo genealogista Alberto Kremnitzer e pela historiadora Anita Novinski, exatas 1076 pessoas foram condenadas pelos tribunais da inquisição no Brasil. Há, porém, uma quase ausência total de dados nos anais históricos do país, visto que todos os condenados eram deportados para a Europa e lá recebiam suas sentenças. Não há uma única linha nos livros de história do Brasil que aborde o tema em nossas escolas e a maioria dos nossos professores ignoram completamente o assunto. É como se quiséssemos extinguir esse fantasma de nosso passado. Anita, em uma entrevista cedida ao Jornal do Brasil, afirma que a inquisição “foi um fenômeno omitido e esquecido pela historiografia tradicional. Nós tivemos um Tribunal do Santo Ofício, que atuou no Brasil durante 285 anos, sobre o qual não conhecemos nada. E a Inquisição ibérica tem uma especificidade, não é exatamente igual à medieval. Ela foi criada exclusivamente por causa da questão judaica, enquanto a medieval, do resto da Europa, era por causa de heresias dentro da própria Igreja Católica”. No dia 15 de junho de 2004, o papa João Paulo II veio a público pedir perdão pela inquisição. O pedido, publicado dois anos antes, havia passado despercebido, portanto, João Paulo II decidiu trazê-lo à tona através da mídia. Seu objetivo seria purificar a memória cristã da igreja diante do terceiro milênio. Ainda assim, Carol Wojtyla enfrentou grande oposição dos clérigos vaticanos, que acreditavam que tal pedido poderia comprometer a índole da igreja e sua infalibilidade. O papa não se deixou levar e, reunindo toda sua humildade, declarou:
“Em determinadas épocas da história os cristãos às vezes contemporizaram com métodos de intolerância e afastaram-se do grande mandamento do amor [...] devemos procurar promover a verdade na suavidade da caridade, certos de que a verdade não se impõe senão com a força da própria verdade (...) sentimo-nos profundamente consternados pelo comportamento de quantos, no decurso da história, fizeram sofrer estes vossos filhos e, pedindo-vos perdão, queremos empenhar-nos numa fraternidade autêntica com o povo da aliança (...) Muitas vezes, porém, os cristãos renegaram o Evangelho e, cedendo à lógica da força, violaram os direitos de raças e povos, desprezando as suas culturas e tradições religiosas (...) Nunca mais contradições contra a caridade no serviço da verdade, nunca mais gestos contra a comunhão da Igreja, nunca mais ofensas a nenhum povo, nunca mais o recurso à lógica da violência, nunca mais discriminações, exclusões, opressões, desprezo pelos pobres e pelos mais fracos”.
Foi preciso muita coragem de Wojtyla para levar adiante seu pedido de desculpas. Nada menos que onze papas comandaram a igreja desde o fim da inquisição, em 1834. Um time que perde frente aos 76 que comandaram o assassínio deliberado de milhões de pessoas. Não obstante, a palavra de um único homem, para muitos, ainda é pouco para retratar erros tão inumanos quanto os cometidos pela ICAR. Jeovah Mendes, no livro ‘Dos Porões Sombrios do Vaticano’, demonstra ceticismo quando fala que “A atitude do eminente pontífice é bastante louvável, embora saibamos que a atual geração nada tem a perdoar, uma vez que nada sofreu, mas sim aqueles que padeceram sob a opressão do catolicismo, nos séculos passados. Contudo, aqueles mártires já nada mais podem perdoar, pois estão mortos, ficando sem efeito os rogos e as lágrimas do bom velhinho - que, felizmente, não tem as mãos manchadas de sangue”. Agora, vivenciando a Era Tecnológica, onde o homem já enviou sondas espaciais aos planetas mais distantes, mostrou que é capaz de clonar animais, desenvolveu as células-tronco, a agricultura transgênica, a comunicação por ondas de rádio e o universo virtual, a ciência defendida pelos mártires da sabedoria parece-nos simplória, ultrapassada e até inocente. No entanto, mesmo diante de todos esses milagres conquistados pelo Homem, ainda há quem defenda teorias que, a despeito da ciência avançada de nossa época, teimam (não há outra definição) em seguir dogmas que já deveriam estar enterrados há séculos. Em 1993, a suprema autoridade religiosa da Arábia Saudita, na figura do Sheik Abdel-Aziz ibn Baaz, publicou um edito onde afirmava que “A Terra é achatada como uma lente e qualquer pessoa que negue essa afirmação é um ateu e merece ser punido”. Não é brincadeira. Baaz fala sério. O mais curioso, porém, é que os navios da Arábia Saudita conseguem transportar petróleo por toda a Terra sem cair pelas margens (sic). Da mesma forma, há aqueles que, apoiando-se em entidades pseudocientíficas, deturpam a realidade através de pesquisas sem qualquer fundamentação teórica e baseados apenas no que querem crer. Henry Morris, presidente do Institute of Creation Research (Instituto de Pesquisa da Criação) renega qualquer tentativa científica de expor a realidade ao garantir que “A única maneira com a qual podemos determinar a verdadeira idade da terra é com Deus nos dizendo qual é. E já que Ele nos disse, muito claramente, nas Escrituras Sagradas, que ela tem alguns milhares de anos de idade, e não mais, isso deve colocar um ponto final em todas as perguntas básicas sobre a cronologia terrestre”. A ciência agrada a poucos. Que o diga Jon Miller, presidente do Centro de Comunicações Biomédicas de Chicago, que anualmente faz pesquisas para medir os índices de alfabetização científica no país mais desenvolvido do planeta. A pesquisa de 2005 revelou que, entre os estadunidenses, 20% acreditam que o Sol gira em torno da Terra, 42% acreditam que o os seres vivos foram criados como são hoje, negando a evolução e 90% acreditam que deus teve papel fundamental na criação do Homem. No Brasil é situação é ainda mais constrangedora. Vejamos alguns dados:
- Segundo o último relatório do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), 20% dos brasileiros não acreditam que o Homem foi à Lua. - Pesquisa semelhante realizada pela FAPESP (Fapesp - Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo) em 2003 demonstrou que 42% acreditam que a ciência é prejudicial à nação. - Pesquisa feita pela BBC em 2004 mostra que 61% dos brasileiros não acreditam que a AIDS pode levar à morte. - Greenpeace mostrou em 2004 que 70% dos brasileiros não sabem definir o que são alimentos transgênicos, mas 73% são contra seu consumo. - Pesquisa encomendada pela revista época ao IBOPE em 2005 diz que 31% dos brasileiros acredita que deus criou o ser humano há 10 mil anos. 54% acreditam que a evolução é conduzida por deus e 75% acham que o criacionismo deve substituir o evolucionismo no currículo escolar. - IstoÉ mostrou em 2001 que 52% dos brasileiros acreditam em discos-voadores.
Enfim, pesquisa realizada pelo IBOPE em 2005 mostra que 90% dos brasileiros não acreditam nos políticos. Ou seja, é mais fácil acreditar em alienígenas do que em políticos. Algo de bom-senso parece estar surgindo nos brasileiros. Ainda podemos nos salvar...
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